A globalização e as relações públicas no Brasil e na América Latina

O grande objetivo das relações públicas é equilibrar os interesses entre a organização e seus públicos. A busca desse equilíbrio deve ser vista também sob a ótica da globalização. A América Latina e o Brasil não fogem dessa realidade, hoje também vivem a globalização.

 

A região passou por tempos difíceis nas últimas três décadas do século XX, que foram marcadas pela violência e intolerância de ditaduras militares, instaladas nas décadas de 1960 e 1970. Já as duas décadas seguintes representaram o início de uma abertura política e a volta da democracia para a maioria dos países da América Latina.

 

Desde então, muitos deles viram suas estruturas democráticas se fortalecerem, mas alguns ainda sofrem a ameaça de golpes militares e todo tipo de instabilidade política e econômica. Para os países que avançaram democraticamente, a desigualdade social permanece como um importante teste de todos os dias.

 

Hoje as organizações não podem mais se limitar ao que é local, a públicos “vizinhos” e segmentados. No final do século XX, grandes mudanças políticas, econômicas e sociais ocorreram, como a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a abertura do mercado brasileiro para as organizações estrangeiras, na década de 1990. Soma-se a isso a queda do socialismo em muitos países ao redor do mundo e o avanço do capitalismo para todos os cantos do globo.

 

Assim sendo, as empresas puderam expandir sua atuação e, como consequência, a competição entre organizações de várias origens se tornou mais acirrada. O avanço da informática e das tecnologias de comunicação trouxe a oportunidade da rápida troca de conhecimentos e produtos, por exemplo.

 

O livro Relações Públicas: teoria, contexto e relacionamentos (Difusão Editora, 320 p.) – escrito por Fábio FrançaMaria Aparecida Ferrari e pelo professor e pesquisador americano James E. Grunig – apresenta um bom contexto brasileiro e latino de relações públicas em relação à globalização.

 

Segundo França, quando analisa o impacto da globalização nos relacionamentos corporativos, afirma que essas “grandes transformações políticas e sociais derrubaram estruturas sólidas e tradicionais, trazendo a revolução tecnológica, de mercados, a introdução de novos conceitos de produtos, de marketing, de competitividade, de produção e de produtividade, de administração e de gestão” (GRUNIG; FERRARI; FRANÇA, 2011, p. 258).

 

Ferrari diz que “a globalização deve ser entendida como um processo civilizatório” (GRUNIG; FERRARI; FRANÇA, 2011, p. 199) porque acredita que esse fenômeno propõe ao ser humano o desafio de descobrir novas possibilidades para a sua vida em sociedade. A autora destaca dois importantes fatores que contribuíram para que empresários e executivos fossem capazes de administrar seus negócios apesar das condições desfavoráveis geradas pelas ditaduras. O primeiro fator é baseado no modelo de negócios, fundamentado na lógica social, que surgiu nos anos 2000 a partir da experiência dos empreendedores durante as últimas décadas do século XX. Esse modelo propõe a adaptação à realidade de cada lugar e o respeito à cultura local. O segundo fator é a adoção da visão de longo prazo, que fez com que muitas organizações superassem as crises conjunturais.

 

No entanto, as organizações da região ainda precisam se livrar de dificuldades históricas do passado como a cultura paternalista, a tendência de improvisação e a falta de transparência. Ferrari diz que a análise de novos cenários, a reinvenção de estratégias e o reforço dos relacionamentos são práticas que os empreendedores da América Latina estão aprendendo a desenvolver para competir no mercado global.

 

No Brasil, a ditadura militar, instalada em 1964, restringiu a atuação das organizações – que necessitam da liberdade de expressão para progredirem – e, consequentemente, da atividade de relações públicas. Ferrari diz que a América Latina ainda não possui uma escola de pensamento de relações públicas, apesar do avanço da produção de estudos e pesquisas na região. Mas a autora relata que o Brasil se destaca porque desde os anos 1950 e, principalmente na década seguinte, a atividade de relações públicas se institucionalizou no país.

 

Alguns acontecimentos marcam esse fato: a criação da Associação Brasileira de Relações Públicas (ABRP), em 1954; o surgimento do curso superior de Relações Públicas na Universidade de São Paulo (USP), em 1967, e, nesse mesmo ano, a criação da lei 5.377, que regulou a atividade profissional de relações públicas. Ferrari afirma que não “resta dúvida de que, paralelamente à regulamentação, a criação do curso universitário de Relações Públicas no Brasil, em 1967, favoreceu o desenvolvimento da área que, aos poucos, ajudou a diminuir o espaço existente entre a teoria que se ensina na academia e a prática profissional” (GRUNIG; FERRARI; FRANÇA, 2011, p. 206).

 

Ainda de acordo com a autora, depois da democratização agências internacionais começaram a se instalar na América Latina e muitas vieram para o Brasil. A democratização também fez com que as organizações começassem a sentir a pressão de públicos e a atividade de relações públicas contou com três importantes aspectos para o seu desenvolvimento: “a defesa dos princípios democráticos, o fenômeno da globalização, e os avanços da tecnologia da comunicação” (GRUNIG; FERRARI; FRANÇA, 2011, p. 208).

 

Portanto, as relações públicas se tornam fundamentais para as organizações, pois o seu trabalho é ser a ligação entre a organização e seus públicos num ambiente que possui grande quantidade de informação, além de ser globalizado, competitivo e mais politizado.

 

Fonte: GRUNIG, James E.; FERRARI, Maria Aparecida; FRANÇA, Fábio. Relações Públicas: teoria, contexto e relacionamentos. 2. ed. São Caetano do Sul, SP: Difusão, 2011.